Bolsistas: Elaine Vitória e Juciane Santos
Supervisora: Liliane Ramos
Turma: Educação Infantil - G4
Segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Título da Intervenção: Agricultura familiar: quem planta o que a gente come?
Objetivos da Atividade:
Estabelecer relações entre o trabalho do agricultor familiar e os alimentos que chegam à mesa, explorar o gênero textual receita e noções iniciais de medidas de temperatura.
Este segundo encontro aconteceu no mesmo dia do primeiro, logo depois do lanche e do intervalo para brincar. Como os dois encontros foram no mesmo dia, não foi necessário retomar o encontro anterior; seguimos direto para uma roda de conversa sobre de onde vêm as frutas e verduras que a turma come em casa.
Para ilustrar
essa conversa, exibimos o curta “Comida que Alimenta”, produzido pelo Centro de
Desenvolvimento Agroecológico Sabiá, encontrado em seu site oficial
(centrosabia.org.br) e disponível no YouTube. É uma animação de cerca de 5
minutos que explica às crianças, em linguagem simples e colorida, o que é a
agroecologia e por que alimentos cultivados sem agrotóxicos, respeitando a
terra e valorizando quem planta, fazem bem à saúde e ao meio ambiente.
Escolhemos esse material por sintetizar, numa linguagem acessível a crianças de
4 anos, a ideia central que sustenta o projeto.
Ao longo da
exibição do vídeo, grande parte das crianças manteve atenção contínua e fez
comentários espontâneos sobre as frutas reconhecidas na tela; algumas se
envolveram de outras formas, observando, se movimentando ou comentando com os
colegas, o que também representa formas legítimas de participação nessa faixa
etária. Na sequência, construímos juntos o gráfico das frutas preferidas: cada
criança escolheu sua fruta e marcou a própria escolha no cartaz usando o dedo
com tinta, uma forma concreta e acessível de registrar a participação, sem
depender de escrever ou desenhar com precisão.
Logo depois
do vídeo e da construção do gráfico, ainda no mesmo bloco da manhã, realizamos
o preparo do ponche. Ao construirmos juntos a receita, cada criança contribuiu
com um palpite, um ingrediente, uma quantidade, uma sugestão, e esse
envolvimento se manteve durante todo o preparo, com as crianças escolhendo as
frutas e opinando sobre o que colocar. Para explorar as medidas de temperatura,
não utilizamos gelo: comparamos o suco e a água gelada com a água em
temperatura ambiente, o que já foi suficiente para que a turma percebesse e
descrevesse as diferenças, nomeando-as como “fria”, “gelada” ou “morna”. O
preparo ocorreu cerca de 20 minutos antes de a turma retornar para experimentar
o resultado, um intervalo curto entre a produção e a degustação.
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Isso não significa desconsiderar o papel do formato da atividade: é provável que o caráter mais sensorial e manipulativo das propostas do segundo encontro também tenha favorecido o envolvimento das crianças. Piaget (1978) discute como crianças nessa faixa etária constroem conhecimento sobretudo pela ação sobre os objetos: manusear as frutas, perceber a diferença entre a água gelada e a água em temperatura ambiente, marcar o gráfico com o próprio dedo, decidir o que vai na receita, são experiências que mobilizam a aprendizagem de um modo que a escuta verbal, por si só, não alcança da mesma forma. Vygotsky (1998) complementa essa leitura ao discutir como a atividade prática, quando compartilhada e mediada por um adulto, amplia o que ele chamou de zona de desenvolvimento proximal, permitindo à criança realizar, com apoio, ações que ainda não realizaria sozinha. Há também uma dimensão freireana nessa proposta: ao construir coletivamente os passos da receita a partir das falas das crianças, a atividade reconhece nelas sujeitos que já trazem saberes sobre o tema, e não receptoras passivas de conteúdo, o que dialoga com a defesa de Freire (1996) de uma educação que parte da leitura de mundo já construída pela criança.
Esse encontro
também foi aquele em que a agroecologia apareceu de forma mais direta, e não
apenas simbólica. Caporal e Costabeber (2004) e, anteriormente, Altieri (1995)
definem a agroecologia como uma forma de pensar a agricultura que articula
conhecimento científico, respeito ao meio ambiente e valorização de quem
trabalha a terra, em contraposição a modelos baseados em agrotóxicos e produção
em larga escala distantes de quem consome. O vídeo apresentou essa ideia de
forma acessível à turma; a receita do ponche a expressou na prática, ao
priorizar frutas e suco em vez de itens industrializados. Em ambos os casos, a
ideia de um alimento que “vem da terra para o prato” deixou de ser apenas uma
frase e se tornou algo que a turma viu, sentiu e ajudou a produzir.
ALTIERI, Miguel A. Agroecology: the science of sustainable agriculture. 2. ed. Boulder: Westview Press, 1995.
AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS, Council on School Health. The Crucial Role of Recess in School. Pediatrics, v. 131, n. 1, p. 183–188, 2013.
BARROS, Romina M.; SILVER, Ellen J.; STEIN, Ruth E. K. School Recess and Group Classroom Behavior. Pediatrics, v. 123, n. 2, p. 431–436, 2009.
CAPORAL, Francisco Roberto; COSTABEBER, José Antônio. Agroecologia: alguns conceitos e princípios. Brasília: MDA/SAF/DATER-IICA, 2004.
CENTRO DE
DESENVOLVIMENTO AGROECOLÓGICO SABIÁ. Comida que Alimenta (vídeo de animação).
Recife: Centro Sabiá. Disponível em: centrosabia.org.br.
FREIRE,
Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São
Paulo: Paz e Terra, 1996.
LORDELO, Eulina da Rocha; CARVALHO, Ana Maria Almeida. Estudos sobre espaço, densidade populacional e interação em instituições de educação infantil. Salvador: UFBA, 2003.
FREIRE,
Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São
Paulo: Paz e Terra, 1996.
VYGOTSKY, Lev Semenovich. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
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