domingo, 6 de setembro de 2026

Elaine e Juci: Amargosa em Cores: Raízes, Sabores e Saberes

 Bolsistas: Elaine Vitória e Juciane Santos

Supervisora: Liliane Ramos 

Turma: Educação Infantil - G4

Segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Título da Intervenção: Agricultura familiar: quem planta o que a gente come?


Objetivos da Atividade: 

  • Estabelecer relações entre o trabalho do agricultor familiar e os alimentos que chegam à mesa, explorar o gênero textual receita e noções iniciais de medidas de temperatura.

    Este segundo encontro aconteceu no mesmo dia do primeiro, logo depois do lanche e do intervalo para brincar. Como os dois encontros foram no mesmo dia, não foi necessário retomar o encontro anterior; seguimos direto para uma roda de conversa sobre de onde vêm as frutas e verduras que a turma come em casa.

    Para ilustrar essa conversa, exibimos o curta “Comida que Alimenta”, produzido pelo Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá, encontrado em seu site oficial (centrosabia.org.br) e disponível no YouTube. É uma animação de cerca de 5 minutos que explica às crianças, em linguagem simples e colorida, o que é a agroecologia e por que alimentos cultivados sem agrotóxicos, respeitando a terra e valorizando quem planta, fazem bem à saúde e ao meio ambiente. Escolhemos esse material por sintetizar, numa linguagem acessível a crianças de 4 anos, a ideia central que sustenta o projeto.

    Ao longo da exibição do vídeo, grande parte das crianças manteve atenção contínua e fez comentários espontâneos sobre as frutas reconhecidas na tela; algumas se envolveram de outras formas, observando, se movimentando ou comentando com os colegas, o que também representa formas legítimas de participação nessa faixa etária. Na sequência, construímos juntos o gráfico das frutas preferidas: cada criança escolheu sua fruta e marcou a própria escolha no cartaz usando o dedo com tinta, uma forma concreta e acessível de registrar a participação, sem depender de escrever ou desenhar com precisão.

    Logo depois do vídeo e da construção do gráfico, ainda no mesmo bloco da manhã, realizamos o preparo do ponche. Ao construirmos juntos a receita, cada criança contribuiu com um palpite, um ingrediente, uma quantidade, uma sugestão, e esse envolvimento se manteve durante todo o preparo, com as crianças escolhendo as frutas e opinando sobre o que colocar. Para explorar as medidas de temperatura, não utilizamos gelo: comparamos o suco e a água gelada com a água em temperatura ambiente, o que já foi suficiente para que a turma percebesse e descrevesse as diferenças, nomeando-as como “fria”, “gelada” ou “morna”. O preparo ocorreu cerca de 20 minutos antes de a turma retornar para experimentar o resultado, um intervalo curto entre a produção e a degustação.

   
    A comparação entre os dois encontros do dia oferece elementos importantes para pensar as condições que favorecem a participação das crianças. No primeiro encontro, realizado antes do intervalo, observamos maior necessidade de movimento por parte do grupo; no segundo, já depois do lanche e do intervalo para brincar, notamos maior concentração em torno das propostas. Pesquisas como a de Romina Barros (2009) e as diretrizes da Academia Americana de Pediatria (2013) discutem como pausas ao longo do turno favorecem a autorregulação das crianças ao retornar às atividades, o que ajuda a pensar essa diferença entre os dois momentos da manhã não como um resultado atribuível à turma, mas como uma condição relacionada à organização da rotina.

    Isso não significa desconsiderar o papel do formato da atividade: é provável que o caráter mais sensorial e manipulativo das propostas do segundo encontro também tenha favorecido o envolvimento das crianças. Piaget (1978) discute como crianças nessa faixa etária constroem conhecimento sobretudo pela ação sobre os objetos: manusear as frutas, perceber a diferença entre a água gelada e a água em temperatura ambiente, marcar o gráfico com o próprio dedo, decidir o que vai na receita, são experiências que mobilizam a aprendizagem de um modo que a escuta verbal, por si só, não alcança da mesma forma. Vygotsky (1998) complementa essa leitura ao discutir como a atividade prática, quando compartilhada e mediada por um adulto, amplia o que ele chamou de zona de desenvolvimento proximal, permitindo à criança realizar, com apoio, ações que ainda não realizaria sozinha. Há também uma dimensão freireana nessa proposta: ao construir coletivamente os passos da receita a partir das falas das crianças, a atividade reconhece nelas sujeitos que já trazem saberes sobre o tema, e não receptoras passivas de conteúdo, o que dialoga com a defesa de Freire (1996) de uma educação que parte da leitura de mundo já construída pela criança.

    Esse encontro também foi aquele em que a agroecologia apareceu de forma mais direta, e não apenas simbólica. Caporal e Costabeber (2004) e, anteriormente, Altieri (1995) definem a agroecologia como uma forma de pensar a agricultura que articula conhecimento científico, respeito ao meio ambiente e valorização de quem trabalha a terra, em contraposição a modelos baseados em agrotóxicos e produção em larga escala distantes de quem consome. O vídeo apresentou essa ideia de forma acessível à turma; a receita do ponche a expressou na prática, ao priorizar frutas e suco em vez de itens industrializados. Em ambos os casos, a ideia de um alimento que “vem da terra para o prato” deixou de ser apenas uma frase e se tornou algo que a turma viu, sentiu e ajudou a produzir.



REFERÊNCIAS 

ALTIERI, Miguel A. Agroecology: the science of sustainable agriculture. 2. ed. Boulder: Westview Press, 1995.

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS, Council on School Health. The Crucial Role of Recess in School. Pediatrics, v. 131, n. 1, p. 183–188, 2013.

BARROS, Romina M.; SILVER, Ellen J.; STEIN, Ruth E. K. School Recess and Group Classroom Behavior. Pediatrics, v. 123, n. 2, p. 431–436, 2009.

CAPORAL, Francisco Roberto; COSTABEBER, José Antônio. Agroecologia: alguns conceitos e princípios. Brasília: MDA/SAF/DATER-IICA, 2004.

CENTRO DE DESENVOLVIMENTO AGROECOLÓGICO SABIÁ. Comida que Alimenta (vídeo de animação). Recife: Centro Sabiá. Disponível em: centrosabia.org.br.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

LORDELO, Eulina da Rocha; CARVALHO, Ana Maria Almeida. Estudos sobre espaço, densidade populacional e interação em instituições de educação infantil. Salvador: UFBA, 2003.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

VYGOTSKY, Lev Semenovich. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

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