Bolsistas: Elaine Vitória e Juciane Santos
Supervisora: Liliane Ramos
Turma: Educação Infantil - G4
Segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Título da Intervenção: Alimentação Saudável: da Terra para o Prato
Objetivos da Atividade:
- Estabelecer relações entre alimentos naturais e industrializados, ampliando a capacidade das crianças de reconhecer alimentos saudáveis e não saudáveis,e, construir, com autonomia, preferências por uma alimentação mais saudável.
O encontro foi organizado em três momentos, articulados entre si para aproximar a turma do tema da alimentação saudável por diferentes linguagens: a narrativa, o desenho e a experiência sensorial.
O primeiro momento reuniu a contação de história adaptável, apoiada em ilustrações, e o "semáforo dos alimentos", com palitoches representando diferentes alimentos. As crianças participaram ativamente desde o início da história, muitas ajudando a criar o próprio enredo, sugerindo rumos para a narrativa e interagindo com os personagens conforme a história avançava. Encerrada a contação, a turma foi convidada a manusear os palitoches e classificar os alimentos segundo as cores do semáforo (verde, amarelo e vermelho), justificando oralmente cada escolha e relacionando os alimentos às sensações de disposição, saciedade e bem-estar no dia a dia.
No segundo momento, foi proposta uma atividade impressa de pintura, em que os alimentos deveriam ser pintados de verde (naturais) ou de vermelho (industrializados). A turma, no entanto, deu outro sentido à proposta original: entendeu o verde como os alimentos que "devemos comer sempre" (os saudáveis) e o vermelho como os que "devem ser consumidos com moderação". Essa ressignificação apareceu em respostas específicas das crianças ao longo da atividade. Uma delas reconheceu o pudim como um alimento a ser consumido com moderação, justificando a escolha pela grande quantidade de açúcar presente na receita, um raciocínio que vai além da simples classificação visual e já aponta para uma compreensão sobre composição dos alimentos. Já um desenho que representava uma tigela de arroz foi pintado de vermelho porque o grupo o identificou como miojo, o que revela tanto a familiaridade da turma com alimentos industrializados do dia a dia quanto a necessidade de retomar, em encontros futuros, a diferenciação visual entre alimentos semelhantes em sua forma, mas distintos em sua origem e preparo.
Para encerrar, houve a degustação de frutas, em que a turma experimentou diferentes sabores, comentou suas preferências e relacionou, na prática, o que havia sido discutido nas duas atividades anteriores. O momento sensorial funcionou como fechamento da sequência, reforçando de forma concreta e prazerosa os conceitos trabalhados de maneira simbólica na história e na atividade impressa.
Chamou atenção o envolvimento da turma desde o início da contação de história, com as crianças assumindo papel ativo na construção do enredo, indício de protagonismo e de apropriação da narrativa como espaço simbólico de aprendizagem, tal como defende Vygotsky ao tratar o brincar como atividade principal da infância. Esse mesmo protagonismo se manteve no semáforo dos alimentos, em que a turma não apenas repetiu categorias apresentadas pela bolsista, mas justificou oralmente suas escolhas a partir de repertórios já construídos fora da escola.
Na atividade impressa, o mais significativo não foi a classificação em si, mas a maneira como a turma reelaborou a proposta original. Ao trocar "natural x industrializado" por "comer sempre x comer com moderação", as crianças mostraram que já operam com uma lógica própria sobre alimentação, construída a partir de suas vivências, e não apenas absorvem categorias externas apresentadas pelo adulto de forma passiva. Isso reforça a ideia de que a criança pequena não é uma tábula rasa diante de temas como alimentação, mas alguém que já chega à escola com hipóteses formadas, ainda que em construção.
O caso do pudim, associado à moderação pelo excesso de açúcar, evidencia um conhecimento prévio bastante consistente sobre composição nutricional, enquanto o da tigela de arroz, confundida com miojo, revela os limites e as hipóteses ainda em formação de cada criança diante de estímulos visuais semelhantes. Mais do que um erro a ser corrigido, esse episódio funciona como material rico para a mediação pedagógica: ele indica que, em encontros futuros, será importante trabalhar com mais cuidado a diferenciação entre alimentos de aparência parecida, mas de origem e preparo distintos, algo que dialoga diretamente com os objetivos do projeto sobre agricultura familiar e industrialização.
Por fim, esses episódios dialogam com a ideia freireana de que educar é partir da leitura de mundo que a criança já possui, ampliando-a, e não apresentar conteúdos isolados de sua realidade concreta. A sequência de três atividades, ao unir narrativa, expressão gráfica e experiência sensorial, permitiu observar essa leitura de mundo em movimento, com a turma testando, ajustando e comunicando hipóteses próprias sobre um tema que atravessa seu cotidiano.




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